terça-feira, 10 de março de 2009

PARTICIPAÇÃO DO POETA CÉSAR WILLIAM NO GRUPO CURARE

O Grupo Curare organizou-se com o intuito de conduzir alguma publicação periódica – a exemplo da revista Uns e outros e das publicações da Akademia dos Párias –, com a qual fosse lançada a pedra fundamental de nossa atividade literária. Após muitas discussões nas ruas e becos da Praia Grande, o grupo percebeu que tinha mais gosto em estar simplesmente reunido para boas conversas sobre literatura, cinema e assuntos de algum modo conectados à arte, do que propriamente elaborar projetos que não saíssem do papel, dada a diferença de temperamentos e opiniões entre todos, além da evidente falta de dinheiro. Notou-se, afinal, que os encontros eram apenas um pretexto para impulsionar o ato de escrever. Com o tempo, mudou-se o planejamento, os encontros aconteceram com maior regularidade, aumentando cada vez o número e a lista de prováveis participantes da futura revista. Contudo, a idéia inicial de montar o grupo tinha autores: Dyl Pires e Ricardo Leão, após um encontro ocorrido em 1995 na Biblioteca Pública Benedito Leite, no anexo aos fundos, onde se elaborou uma lista inicial de amigos e conhecidos comuns, constante de uns 25 nomes, entre os quais vários que já vinham-se destacando em concursos locais e nacionais. O nome da revista – Curare – foi igualmente sugestão do Dyl, que nos apresentou a todos, porém quem sugeriu a publicação de um periódico foi o poeta e ficcionista Marco Pólo Haickel. O encontro havia, pois, acontecido. Como o projeto da revista naufragou após um tempo, faltou um evento que registrasse e existência do grupo, o que se passou a perseguir nos meses posteriores, entre reuniões e bate-papos, a maioria na Praia Grande, arredores e Conjunto Cohab.A primeira grande oportunidade, todavia, surgiu quando a Secretaria do Estado de Cultura decidiu publicar, em 1996, uma antologia de jovens poetas, posteriormente chamada Safra 90. Esta iniciativa conseguiu congregar um bom número dos que faziam parte da configuração original do grupo. Entretanto, não foi inteiramente um sucesso, pois a antologia surgiu com a proposta de divulgar a jovem poesia de todo o Estado; embora aquele grupo de poetas fosse a maioria, a antologia não estava atrelada à existência de um grupo, pois havia outros antologiados que não comungavam de idéias comuns e mesmo pertenciam a faixas geracionais diferentes, como o caso de Ribamar Filho, o “Riba” do sebo Poeme-se, ex-integrante da Akademia dos Párias. Mas lá estavam os integrantes das primeiras reuniões do grupo Curare: Antônio Aílton Santos Silva, Dyl Pires (Eldimir Silva Júnior), Bioque Mesito (Fábio Henrique Gomes Brito), Hagamenon de Jesus Carvalho Sousa, Jorgeane Ribeiro Braga, Nilson Campos (Natanilson Pereira Campos), este cronista (Ricardo André Ferreira Martins), entre outros. Esta primeira publicação – que silenciou àquele tempo a idéia da revista – permitiu certa notoriedade que justificava o prosseguimento de outras ações. Todavia, era necessário ainda um evento que identificasse a existência de um grupo, em torno do qual orbitavam simpatizantes e participantes sazonais, entre os quais se destacava Couto Corrêa Filho, poeta e crítico de arte, que se solidarizou com as idéias e poesia do Curate. Muitas das reuniões do Curare aconteceram na residência do Couto, que a partir dali trouxe contribuições definitivas para a cristalização de alguns projetos. Surge então a idéia de uma exposição e recital, a qual foi colocada em prática em inícios de 98, intitulada Sygnos.doc, no Palacete Gentil Braga, promovida pelo Curare com o auxílio do Departamento de Assuntos Culturais da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Estudantis, principalmente na figura de seu diretor, Euclides Moreira Neto. Esta exposição absorveu muitos esforços, consumindo muito tempo, nervosismo e paciência. O evento, entretanto, finalmente aconteceu, garantindo um marco existencial e histórico para o Grupo Curare, ao qual se somaram novos nomes, como os poetas César William, Couto Corrêa Filho, Eduardo Júlio, Dylson Júnior, Gilberto Goiabeira, Judith Coelho e Rosemary Rego. Noticiado, publicado, o fato está lá, de modo que não há como não afirmar a existência de um grupo de amigos e poetas, que dali em diante ganhava cada vez mais espaço entre os outros grupos que se movimentavam no cenário literário local. O pacto de amizade, no entanto, havia assumido dimensão um pouco mais séria, o que motivou a ação seguinte. Para que o grupo pudesse se firmar, passou-se a participar mais regularmente de concursos. O resultado veio em forma de premiações e publicações, com as quais a maioria saía do completo anonimato. Quem primeiramente publicou em livro foi a poeta Jorgeana Braga, com o seu Janelas que escondem espíritos (1996), pelas Edições Não-Ser, em Teresina. O primeiro livro premiado, entretanto, foi Círculo das pálbebras (1999), de Dyl Pires, no XXIV Concurso Literário e Artístico “Cidade de São Luís”, Prêmio “Sousândrade”, como primeiro lugar em poesia, em 98. No ano posterior, quem ganhará o mesmo prêmio é Antônio Aílton, com o seu As habitações do Minotauro (2000) e, posteriormente, com um ensaio Humanologia do eterno empenho, sobre Nauro Machado, na respectiva categoria. Neste mesmo ano, Ricardo Leão é premiado com a publicação de Simetria do parto (2000), no III Festival Universitário de Literatura, promovido por The Document Company Xerox, Revista Livro Aberto e Editorial Cone Sul, seguido por Bioque Mesito com o seu A inconstante órbita dos extremos (2001), no mesmo festival, em sua quarta edição. Ainda em 2001, será a vez de Hagamenon de Jesus publicar o seu The problem, em edição do autor. Não se pode esquecer outro fato, que é a acumulação seguida de prêmios locais e nacionais em outras categorias que não a publicação em livro individual. Somente no Festival Maranhense de Poesia – antigo Festival Maranhense de Poesia Falada – é possível contabilizar a participação dos membros do Grupo Curare desde 92 como finalistas (Hagamenon de Jesus, em 92; Antonio Aílton, em 93; Dyl Pires, Dylson Júnior, Ricardo Leão e Antônio Aílton, em 97; Dyl Pires, Bioque Mesito, Antonio Aílton, em 98; Antonio Aílton, Bioque Mesito, Dylson Júnior, César William, em 99), tendo obtido este cronista Menção Honrosa em 97, com o poema A filha da puta e Antônio Aílton o segundo lugar com Poema-fato ou fenômeno; Dyl Pires obterá o primeiro lugar no ano seguinte com o poema em prosa O poeta e sua fala, sendo que nos anos seguintes Bioque, Dyl e Hagamenon participarão das comissões julgadoras do respectivo festival. A presença literária e o prestígio dos componentes do Grupo Curare começam, por conseguinte, a se firmar na constelação de tantos poetas da ilha ludovicense.Com isto, não se está querendo fazer um mero ranking de publicações e distinções literárias, a título de provar qual o grupo que publicou mais ao longo de uma década que passou, mas apenas frisar a importância e os méritos de uma geração de escritores e poetas que se encontra entre as mais ativas de cenário literário atual, sem desmerecer a importância de outros. É justamente neste ponto que cabe aqui um importante adendo – a relevância de um outro grupo de poetas e escritores, surgido no mesmo período, com o qual o Grupo Curare tem uma dívida de gratidão e afeto, além de afinidades indeléveis: o Grupo Carranca, capitaneado pelos incansáveis poetas e escritores Mauro Ciro Falcão e Samarone Marinho, os quais se tornaram grandes comparsas das atividades do Curare e vice-versa. A partir de 2000 as existências dos dois grupos se encontram praticamente paralelas e, em certa medida, confundidas, ressalvadas as individualidades que motivaram o projeto de cada um. Pertencentes a uma faixa geracional um pouco diferente – embora quase coeva –, os membros do Grupo Carranca aceitaram dividir seus espaços e iniciativas, durante algum tempo, com o Grupo Curare. Já são célebres as reuniões dominicais na casa de seu “Gojoba”, na qual os membros do Curare foram recebidos como membros da família. Durante vários anos, as reuniões e encontros do Grupo Curare e Grupo Carranca aconteceram na casa do jornalista, sempre com bastante aconchego e diversão. A participação de vários membros do antigo Curare consta das antologias de poemas e contos organizadas pelo grupo Carranca, que agitaram o cenário literário de São Luís entre 1999 e 2002. De lá para cá, os membros de ambos os grupos, agora identificados pelos laços comuns, com seus projetos e propostas definidos, trabalham para construir a identidade da nova literatura maranhense.Outros poetas poderiam ser computados como pertencentes a esta mesmo bloco geracional, vindos de outros grupos e atuando no mesmo período. Contudo, a jovem produção literária vem orbitando, nos últimos dez anos, em torno destes nomes que ocupam, com certeza, a berlinda dos acontecimentos mais exponenciais, como prêmios e publicações. Não se trata ainda de escritores e poetas consagrados, porém a insistência em publicar e movimentar a cena cultural e literária maranhense os coloca entre os mais produtivos que já surgiram nos últimos 20 anos, com grandes possibilidades de se tornarem os sucessores da velha guarda na corrida pela continuação da tradição. Um sintoma disso é a atuação importante de novos grupos organizados, como o caso do Poeisis, integrado pelos membros do antigo Curare como Antônio Aílton, Bioque Mesito, e pelos poetas co-geracionais Danyllo Araújo, Geane Fiddan e Natinho Costa. Outros nomes que aguardam publicação, possuindo obras inéditas de grande relevo estético, são a poeta Jorgeana Braga (A casa do sentido vermelho, Sangrimê, Cerca Viva), Nilson Campos (o romance A Noite, além de contos e poemas), e a sensível poeta Rosemary Rego, com uma obra lírica surpreendente. Uma geração, afinal, não se faz somente de poetas publicados e, às vezes, alguns de seus melhores talentos estão entre aqueles inéditos em vida, como é o caso de vários exemplos, como o de Konstantinos Kaváfis, Emily Dickinson e Cesário Verde. Há outras histórias a ser contadas, mas esta aí foi testemunhada e acompanhada de perto. O grupo de jovens talentos, que acaba de ser laureado no Prêmio “Gonçalves Dias” de Literatura e no Concurso Literário e Artístico “Cidade de São Luís” já possui, há algum tempo, um rol de realizações isoladas que, se não têm o selo da atividade em grupo, estão ligadas indelevelmente à biografia de uma confraria de amigos, ainda jovens e no começo de suas carreiras literárias, mas lutando para que elas se firmem e possam, quem sabe, tornar-se perenes através da história. *Ricardo Leão é poeta e ensaísta
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